Retorno às aulas presenciais aumentará transmissibilidade da Covid-19

 Biólogo da Unimontes alerta que segunda onda do coronavírus desaconselha volta presencial sem vacinação

* Por Waldo Ferreira

As aulas presenciais na rede estadual de ensino serão retomadas no dia 4 de março, enquanto nessa mesma data a rede municipal retornará com as aulas apenas por meio virtual, de acordo com decreto publicado pela Prefeitura de Montes Claros.

A decisão do governador Romeu Zema de reabrir as salas de aula sem vacinação e em meio a uma segunda onda da pandemia do coronavírus é considerada temerária por especialistas da área de saúde e entidades que representam os professores.

Doutor em ciência animal e mestre em parasitologia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), além de membro do grupo de pesquisa em biodiversidade e saúde da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes), o biólogo Magno Borges acredita que o retorno das aulas iria colaborar para o agravamento do cenário de recrudescimento da Covid-19. Ele cita o aumento de casos ou estabilidade em patamares altos de infecção. “Além disso, estamos vendo o surgimento de variantes novas do vírus com maior transmissibilidade”, alerta.

Para o professor, o retorno presencial agravaria esse cenário, uma vez que o fechamento das escolas é uma das medidas mais efetivas para inibir a circulação do vírus, perdendo somente para o cancelamento de pequenas aglomerações, como mostrou um estudo publicado na revista Nature Human Behavior em dezembro do ano passado. “Outra evidência que o fechamento das escolas diminui a circulação dos vírus é a diminuição do número de atendimentos pediátricos por doenças respiratórias, se comparado com outros anos”, revela.

Quais os aspectos negativos de uma volta às aulas presenciais num momento de pandemia, sem que a população esteja imunizada?

Magno Borges – A volta, mesmo em turmas reduzidas, aumenta a circulação de pessoas na cidade e o cumprimento das regras de distanciamento social pelos estudantes é muito difícil, especialmente crianças. Um agravante no Brasil é que muitas crianças dividem moradia com os avós, grupo de risco para a doença. Na minha opinião, a volta com segurança só seria possível depois da vacinação dos idosos e dos profissionais da educação, da implementação de medidas sanitárias nas escolas e de rigoroso rastreamento de contatos em caso de surtos no ambiente escolar.

Por que numa pandemia o retorno às salas de aula não é de simples aplicação?

Magno Borges – Seriam necessárias adaptações nas instalações das escolas, compra de EPI’s, treinamento do pessoal, entre outras medidas. E sabemos que a realidade das nossas escolas está longe desse padrão. Muitas têm deficiências básicas, como boas instalações sanitárias. Embora as medidas possam parecer simples, sua implementação é complexa, especialmente com crianças e adolescentes, que naturalmente têm dificuldade de manter o distanciamento social. Um estudo de rastreamento de casos feito na Coréia do Sul, publicado na revista do CDC, mostrou que a transmissão em casa é maior quando o paciente index (que trouxe a infecção) está no grupo entre 10-19 anos.

Que alternativa deveria ser considerada para que os prejuízos ao ensino fossem minimizados, durante a pandemia?

Magno Borges – Por enquanto temos que continuar no sistema remoto, tentando aperfeiçoar esta prática com treinamentos para os professores, ajuda de custo para compra de equipamentos e aumento das ações de inclusão digital para os estudantes.

O senhor considera a Unimontes e seus campus preparados para um retorno agora?

Magno Borges – A Unimontes, como toda universidade, tem um complicador para o retorno presencial por serem polos que recebem alunos de diversos municípios e até de outros estados, o que é especialmente grave quando novas variantes do vírus começam a circular pelo país. Em condições normais a universidade recebe dezenas de ônibus de cidades da região, trazendo estudantes. Eles entram em contato com os colegas no campus. Se uma nova variedade como a de Manaus chegar a Montes Claros essa movimentação auxiliaria a interiorização dessa cepa. A Unimontes também tem muitos professores no grupo de risco, por idade ou comorbidades, que no caso nem poderiam retornar para a atividade presencial. Além disso, também sofre das mesmas dificuldades que listei para as escolas básicas acima.

Qual deveria ser a prioridade do governo nesse momento?

Magno Borges – A vacinação tem que ser a prioridade número 1. Só voltaremos a certa normalidade depois que a população estiver vacinada.

Como o senhor avalia a estratégia do governo de Minas no combate à pandemia na perspectiva da educação?

Magno Borges – Na área de educação o governo de Minas poderia ter feito mais pela inclusão digital de alunos carentes, ter investido mais no conteúdo remoto e dado mais apoio aos professores. No combate a pandemia o governo estadual poderia ter demonstrado mais iniciativa na busca de vacinas para o Estado, como estão fazendo os governos de São Paulo e Bahia, por exemplo. O estado de Minas Gerais possui duas universidades estaduais e o maior número de universidades federais do Brasil. O governador poderia ter acionado essa inteligência disponível no Estado para lhe aconselhar sobre como conduzir a mitigação dos efeitos da pandemia.

Adunimontes – A posição oficial da Associação dos Docentes da Unimontes (Adunimontes) é de que a volta às atividades normais só deveria ocorrer com segurança, ou seja, com a vacina. “Infelizmente, ao invés disso, o governador está pressionando o retorno das atividades escolares sem a vacinação. E isso os professores e seu sindicato não podem aceitar”, reforça nota da entidade.

  • Waldo Ferreira é jornalista e assessor de comunicação da Adunimontes

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