A educação fora da agenda

     - Uma apresentação de carimbó abriu a SBPC Educação no campus regional da UFMG, em Montes Claros

     por Fernando Haddad

    O evento precede o encontro da Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, que será realizado entre os dias 16 e 22 de julho no Campus Pampulha da UFMG, em Belo Horizonte.

    O grupo Saruê, da Unimontes, apresentou a dança típica do Belém do Pará antes da abertura oficial do encontro, convidando quem estava na plateia para dançar. Um deles: aquele que ministraria a conferência de abertura, ex- ministro da Educação do governo Lula e Dilma Rousseff e ex-prefeito da cidade de São Paulo.

    A cena: Fernando Haddad, professor da Universidade de São Paulo (USP), dançando carimbó antes de sua conferência sobre gestão de políticas públicas.

    Foto: Osger Machado/ UFMG
    “A educação nunca foi um gasto” foi uma das primeiras falas do ex-ministro do MEC.

    Haddad ministrou conferência a cerca de 600 pessoas, numa mesa composta pelo reitor da Universidade Federal de Minas Gerais, Jaime Ramirez, pela secretária da Educação do Estado, Macaé Evaristo, e pela vice-presidente da SBPC, Vanderlan Bonzani.

    “A educação não é a soma de disciplinas, nem apenas o domínio de instrumentos: a educação é um valor social”.

    “Infelizmente, pouca gente entende a educação como valor social”, disse Haddad, ao relacionar sua fala a um ditado que aprendeu com os coreanos: a educação é barata porque você só educa uma geração.

    Para o ex-ministro, a educação não pode ser vaidosa a ponto de permitir que apenas um indivíduo detenha todo o conhecimento para si. A educação deve ser universal, pois é ela quem permite ao individuo a possibilidade de retorno para a comunidade que o educa.

    “Estamos adequando a educação a estruturas precárias”

    A crítica política foi marca da conferência de Haddad, membro do Partido dos Trabalhadores. Segundo ele, a educação saiu da agenda nacional desde 2014, quando uma série de eventos culminou na crise política que o Brasil vive hoje. Citando a Reforma do Ensino Médio e a PEC do teto de gastos como políticas de desmonte dos direitos conquistados ao longo de uma década, o professor criticou as ações de “um governo ilegítimo, que não tem projeto para o país”.

    “Querem engessar a estrutura segmentada entre intelectuais e trabalhadores simples. Para os primeiros, um pouco mais de educação. Já as camadas mais simples não fazem jus a mais do que o necessário para se manterem. Seus direitos e sonhos não valem nada”, criticou.

    Vídeo: Osger Machado e Gabriel Araújo

    “Nunca um Brasil dependeu tanto de vocês quanto hoje”

    Sua esperança reside então numa juventude que não só está aberta, como protagoniza esse tipo de discussão. A SBPC Educação, em sua visão, “deve vir a público demonstrar resiliência para que as coisas voltem para o rumo”.

    Sua esperança reside então numa juventude que não só está aberta, como protagoniza esse tipo de discussão. A SBPC Educação, em sua visão, “deve vir a público demonstrar resiliência para que as coisas voltem para o rumo”.

    SBPC Educação

    Jaime Ramírez: SBPC em Montes Claros discute relação entre ciência, sociedade e formação de recursos humanos. Foto: Marcílio Lana/ UFMG
    Para o reitor Jaime Ramirez, a SBPC Educação, evento que integra as comemorações dos 90 anos da UFMG, representa a oportunidade de refletir sobre o futuro de todas as escolas públicas e gratuitas do país.

    “É um chamado a todos nós para repercutir a relação entre ciência, sociedade e formação de recursos humanos. São inquietantes os desafios que nos aguardam no caminho de defender nossas instituições e atuar na construção do país. A UFMG nunca deixará de resistir”, disse o reitor, destacando o orgulho por ser natural de Montes Claros, cidade que sedia o evento.

    Vanderlan da Silva Bolzani, vice-presidente da SBPC, faz coro à fala do reitor:

    “Só o conhecimento é capaz de tirar a sociedade de apatia e da desesperança. Aqui estão profissionais que podem mudar o destino da nação. É preciso pegar pelas mãos as crianças e mostrar que, por meio da educação, elas vão descobrir os segredos do mundo e se tornar profissionais éticos e felizes”.

    Edição: Gabriel Araújo sob supervisão de Alessandra Ribeiro

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